sexta-feira






Hoje, arrumando uns papéis velhos, achei alguns escritos da época que morei em Atibaia , e por que eu não queria me perder de mim mesma , antes de jogá-los fora, transcrevo-os aqui.
E lá se vão 17 anos.


Páginas de um setembro.


Setembro chega seco e nítido, como a realidade saindo das brumas.
Ansioso por florecer.
A terra poeirenta não diz que sasciará a sede da primavera.
Mas ,outros "setembros" me dizem que sim, e eu espero a chuva chegar.
Sento-me sob o calor do sol da manhã e diante de mim ,grandiosa, reluz a montanha. Tão próxima que quase posso tocá-la ....
Assim eu a vejo, não mais com os olhos de um cartão postal ,
não mais espectadora de finais de semana.
Sinto-a minha,
a cúmplice, de tantas manhãs ensolaradas e de noites silenciosas.

Ela e eu ali.
Divididas entre grandezas e insignificâncias e circundadas por um céu azul.
Uma gigante verde , deitada sobre o muro da minha casa.


Eis que surge na porta, encostada no parapeito, a criança deperta, com um só pé de meia e um pijaminha azul. Ela é uma visão grandiosa também
Entro na casa que já cheira a café . Percebo que nem vi a faxineira chegar. Tento inventar uma desculpa para estar de camisola encima do muro às 7 hs da manhã. Me convenço de que ela não tem nada com isso e mando ela começar pelos banheiros enquanto procuro o outro pé da meia .
A criança assiste pica -pau indiferente com o bigode branco de leite.
Claudete grita do banheiro que que não entende de onde vem tanta areia!!! Digo que deve ser o vento enquanto tiro a tartaruga que arrasta um pedaço de tomate pela sala.
Quem deu esse tomate para o Donatelo? Donatelo é a tartagura da minha vizinha, não me perguntem porque está aqui.

Final de tarde. Já fui buscar a criança imunda e feliz.
Enquanto ela tira o tênis repleto de areia no piso do banheiro, conta que a Camila brigou com o bruno, que jogou o lanche no chão e ainda por cima pisou e a tia deu bronca no raul porque ...e ela? Ah, ela foi muito comportada e fez minhocas com massinha e comeu toda a banana e me conta meio em segredo que a Marina disse que a mãe dela disse, que o tio dela viu ,que na montanha tem lobos ...e logo muda de assunto e quer saber porque todo mundo tem o tênis da Pocahontas, menos ela..

Noite. A lua é um fiapo de luz.O contormo da montanha é breu, mais escuro que o escuro do céu. Silêncio absoluto, o mesmo que as vezes me agoniza, agora me inunda de paz. Faz mais de um ano que eu moro aqui, interior de São paulo, interior do interior da metrópole agitada e já não me sinto tão sozinha, como sozinha eu era na multidão.

Final de setembro.
A primavera assumiu. A árvore toda engruvinhada e seca no quintal que eu pensei em arrancar no ano passsado , novamente começa a brotar do nada.
Os galhos secos se enchem de raminhos verdes como mágica.
Esse ano eu já sei. Ela dará caquis.Muitos e muitos caquis....tantos ,tantos caquis....e então quando eu me acostumar a ter a cozinha repleta de caquis, um dia, desconsolada , repararei que não haverá mais nenhum caqui, nem no galho mais alto... Mas a natureza é assim, eu já percebi, e assim será com as laranjas, as uvas ...tudo regado ao sol, a chuva, a paciência para esperar o tempo certo de cada coisa acontecer, florir...frutificar...morrer ... renascer

Chove.
Chuva demais para a criança com nariz entupido.para os lobos na montanha, para as ruas de terra que se tranformam em barrancos de lama , para as roupas no varal .

Então eu espero
o sol surgir , os caquis brotarem , a criança crescer , os lobos dormirem...

Nenhum comentário: