Os cátaros
"Na Idade das Trevas , quando o espírito repressor de quem detinha o poder podia atingir limites inimagináveis, uma terrível Cruzada irrompeu no sul da Europa. As vítimas foram membros de um pequeno grupo religioso, conhecido posteriormente como "Catarismo". Tal movimento, cuja origem e evolução ainda não foram satisfatoriamente explicadas, deixou como legado um grande exemplo de luta e coragem, raramente vistos em outros momentos.
finais do século XI e início do XII, em uma área situada ao Sul da atual França vivia uma comunidade feliz, tranquila e extremamente avançada para a época, em termos de bem-estar e harmonia social. Havia riqueza abundante e fartura material, raras na Europa Medieval. Em termos políticos, era um oásis de liberdade, pois se tratava de um território praticamente independente de qualquer poder central. Alguns autores acreditam que ali os Templários iriam fundar seu Estado, se não tivessem sofrido os reveses do início do século XIV.
Tudo caminhava em paz, até que a extrema arrogância de poucos acabou com esse paraíso na Terra. Disfarçados de defensores de Deus, os algozes, na verdade, queriam a incorporação política da região ao reino da França. Em meados do século XI, ao Sul da atual França, na região, antigamente, conhecida como "Ocitânia", hoje, denominada "Languedoc" – ambos os termos significando "terra da língua do sim" - surgiu um movimento fundamentalista cristão, pacífico, que via no exemplo de vida de Jesus, simples e sem luxo algum, a base de sua doutrina. Acima de tudo, a palavra de ordem era humildade - desprezando a soberba, a arrogância e os valores mundanos. Os integrantes desse movimento foram chamados, pelos historiadores eclesiásticos, de "Cátaros" - derivação de "katharoi" (puro, em Grego).
Considerado uma heresia pela cúria romana, tal movimento agregava integrantes de todas as classes sociais, sem distinção entre os sexos. Uma vez que o termo "heresia" deriva do Latim "haeresistia", que, por sua vez, veio do Grego "hairesis", que significa "capacidade de escolher", "herege" tornou-se sinônimo de Cátaro. Pregando o retorno ao Cristianismo primitivo, desprezavam a intermediação de qualquer instituição terrena nas questões de fé, defendendo a ligação direta dos servos com o Divino. Argumentavam que não se apregoa, em nenhum momento, nos Evangelhos, a existência da Igreja ou de qualquer autoridade regulatória da espiritualidade das pessoas. A salvação viria em seguir o exemplo de Jesus, com uma vida serena, livre de qualquer vaidade relativa ao mundo material. De nada adiantaria a existência de uma Igreja, como forma de canalização da vontade de Deus em relação às questões seculares – esta, talvez, fosse a maior das heresias: afirmar que não haveria justificativa para a existência da estrutura eclesiástica. A busca do divino através de experiências místicas diretas era uma das suas principais características. Desejavam uma comunhão direta com o Criador, transcendendo o campo pessoal. Para isso, teriam que atingir a sabedoria superior – a chamada "Gnose". Como principal texto doutrinário, utilizavam o Evangelho de São João e o chamado "Evangelho do Amor", texto não-reconhecido pela Igreja. Realizavam obras sociais concretas, ajudando os necessitados de diversas maneiras, pois acreditavam que a fé só seria uma experiência válida se exercida na prática.
Investiam, por exemplo, em campanhas de promoção à saúde e educação, sempre gratuitas. Nesse ponto, percebemos que a preocupação com a filantropia, tão em voga atualmente, já existia
nesta época. Seria uma forma de busca da perfeição como ser humano, ou de aproximação com o divino. Por não exercerem nenhuma forma de hierarquia, respeitando os credos diversos e pela união sincera entre todos, podemos afirmar que exerciam fielmente os princípios de liberdade. Em relação à Arquitetura, deixaram um grande legado. Construíram castelos maravilhosos e abadias grandiosas em regiões de difícil acesso, nos cumes de montanha e perto de precipícios. Além de proteger contra ataques, possibilitava aos fiéis observarem vistas maravilhosas das paisagens, a partir de suas sacadas. Hoje, tais obras são famosos pontos de turismo e visitação.
Revestido pelo caráter humanístico, aceitando todos indistintamente e primando pelo exercício pleno da filantropia, tal movimento crescia vertiginosamente e começava a incomodar as autoridades eclesiásticas. Pelo conjunto de ideias em franca disseminação e pelas ações junto às comunidades, os chamados heréticos se tornaram alvo da atenção do Papado e da Coroa da França. Em 1.165, houve a primeira condenação formal, realizada na cidade de Albi, localizada no Languedoc. Desse fato, deriva o termo "Albigense", utilizado para denominar a Cruzada e, também, o próprio movimento. O Papa Inocêncio III convocou os fiéis para uma ação religioso-militar, conhecida como Cruzada Albigense. Sob a liderança de Simon de Montfort, no período de 1.209 a 1.224, e depois comandada pelo Rei Luís VIII, de 1.226 a 1.229, foi a primeira a combater, apenas, no continente europeu. Outra particularidade era que o alvo se constituía não por mouros invasores da Terra Santa, mas por uma pacífica comunidade cristã. O absurdo da situação espelhava o caos, que imperava nas colunas paulinas, e o total desprezo à dignidade humana. No primeiro ano, um contingente de trinta mil cruzados se lançou rumo ao Languedoc, não apenas combatendo os Cátaros, mas todos aqueles que se encontravam pela região. Quem surgisse pela frente, sofreria as ações violentas, mesmo sendo católico fiel. Os "cavaleiros" foram alistados dentre os piores tipos disponíveis, como condenados, desordeiros e mercenários. A violência contra a população foi extremamente severa, e os registros da época nos mostram um horror e uma carnificina sem igual na História Ocidental. A turba feroz e enlouquecida, fortemente armada, arrasava tudo que se mexesse perante os sabres. A Ordem do Dia era ataque primeiro, e pergunte – ou ore – depois.
Apenas, na cidade de Bèziers, em 1.209, mais de sessenta mil sucumbiram queimados ou esquartejados. Às portas da cidade, os cruzados relutaram por um momento antes do confronto, ao perceberem que havia muitos católicos e pessoas comuns pela cidade. Mas foram incentivados ao massacre pelo Prelado do Vaticano, ali presente, o Arcebispo de Narbonne. Arnaud Amaury tranquilizou os atacantes afirmando que matassem todos, "pois Deus iria cuidar dos seus, posteriormente". Arrasada a cidade de Bèziers, os cruzados marcharam
triunfalmente para Carcassone, onde Simon de Montfort se apossou dos Condados de Trencavel, Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepox, Pamiera e Albi. Em todos, a matança foi maciça e cruel. A área, ao redor das cidades de Carcassone e Toulouse, foi completamente arrasada. Muitos eram queimados vivos, em fogueiras coletivas com até quinhentos indivíduos. Mulheres, idosos, crianças e deficientes não eram poupados. O ânimo dos guerreiros era estrondoso, pois sabiam que, se combatessem fervorosamente por quarenta dias, teriam seus pecados perdoados e direitos legítimos às riquezas, originados dos saques.
Há de se registrar a postura solene e tranquila da maioria das vítimas ao se encaminharem para o sacrifício, sem lamúrias nem choros, com sua fé inabalável, servindo como sustentáculo espiritual nesse momento de horror. Mesmo quando a única certeza era queimar lentamente em uma fogueira humana. Por volta de 1.224 o Rei Luís VIII, liderando os Barões do Norte, empreendeu uma nova cruzada, após a morte de Montfort, em 1.218. Essa empreitada durou cerca de três anos e
chegou até Avignon, onde terminou o cerco aos hereges. Em 1.229, foi realizado um acordo, conhecido como tratado de Meaux, entre o Rei da França e os senhores feudais das áreas conquistadas, passando o domínio completo para a Coroa. Terminava oficialmente a guerra. A anexação plena da região havia sido obtida. No curto espaço de tempo, que durou o massacre, centenas de milhares tombaram. Os números são variados, e não muito confiáveis, pois a única fonte de registro oficial pertence aos arquivos dos vencedores. Alguns autores mencionam quase um milhão de vítimas, trucidados diretamente em combate, ou nas fogueiras acesas após as conquistas das cidades. Os poucos aprisionados terminavam agonizando em masmorras subterrâneas, caquéticos pela fome ou consumidos por doenças. A morte, nesses casos, era lenta e terrivelmente cruel.
Após arrefecer a fúria cruzada, os sobreviventes passaram a pregar, como faziam os primeiros cristãos: em catacumbas, cavernas e nas florestas. Isso porque a Cruzada Albigense, apesar de sua brutalidade atroz, não fora suficiente para exterminar todos os indivíduos nem tampouco os seus ideais. O fortalecimento da Igreja e sua hegemonia, como "representante única de Deus na Terra", estavam garantidos, mas ainda havia reminiscências, que deveriam ser resolvidas. A perseguição deveria persistir, mas de forma pontual e constante. Alguns hereges haviam escapado e, juntamente, com outros, que maquinavam contra a Fé Sagrada, necessitavam ser "corrigidos". Não mais seria possível nem interessante empreitar uma nova cruzada. Estava indicado o uso de métodos mais "inteligentes", sem grande estardalhaço, mas com a mesma crueldade dos anteriores, marcando com sangue a vontade soberana do poder.
Em 1.231, já refletindo esse novo “modus operandi”, o Papa Gregório IX lança a Bula "Excomunicamus". Tal documento estabelecia a nova forma de ação, buscando as confissões dos hereges em julgamentos eclesiásticos. Encarregados de tais missões, surgiam as "cortes", chamadas genericamente de Tribunal do Santo Ofício. Os que pensavam de forma contrária ao "bom senso" reinante, estariam sujeitos à perda de propriedades, da liberdade e da própria vida - sua e daqueles que os protegessem. A nova diretriz aproveitava para proibir a manutenção de bíblias nas casas de pessoas comuns. Em 20 de abril de 1.233, o mesmo Gregório IX lançou duas Bulas, que efetivaram as ações do Tribunal do Santo Ofício. Destaca-se a Bula "Licet et Capiendos", dirigida aos Dominicanos. Determinava que estes seriam os responsáveis pelas ações contra os suspeitos. Ordenava que não poupassem métodos para obter as confissões. Exigia apoio do poder secular, privando os pecadores dos benefícios espirituais com severas censuras eclesiásticas.
No ano de 1.252, o Papa Inocêncio IV publicou o Documento "Ad Extirpanda", autorizando o uso de tortura física para se obterem as confissões. Além de trazer uma série de orientações aos inquisidores, continha uma frase, que resumia bem os ânimos da época: "os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas". O conjunto de ações direcionadas a inquirir, ou questionar o comportamento dos desgarrados, ficou conhecido como "Santa Inquisição", nome que se tornou sinônimo de tortura, horror e irracionalidade. O mundo ocidental atravessava uma fase de trevas. Para nós, em pleno século XXI, é quase impossível imaginar o grau de terror a que a população, em geral, estava sujeita. Qualquer denúncia podia gerar os mais dilacerantes sofrimentos. Milhares foram torturados. A criatividade humana projetava os mais engenhosos instrumentos, construídos exclusivamente para causar dor. A confissão era essencial para que os bens do infiel escoassem, diretamente, para os cofres do Clero. O medo se espalhava nas pequenas comunidades. À chegada das comitivas da Inquisição, seguiam-se as cenas de brutalidade, que culminavam com fogueiras humanas em locais públicos. Os "julgamentos" eram aberrações jurídicas. Enquadrado por heresia, bruxaria, ou qualquer outro comportamento não muito cristão, o infeliz não tinha qualquer chance de escapar.
Vamos ver o que nos responde hoje a igreja católica:
"É certo que a Igreja não errou contra os cátaros, dado que ela não erra jamais. Seus filhos, sim, erram. Caberia a pergunta: erraram os filhos da Igreja contra os cátaros, então?
De modo geral, não. Combatê-los, inclusive mediante uma cruzada, e com a Inquisição, foi um acerto, foi algo meritório e necessário. A instituição da Inquisição, a organização de uma cruzada contra eles, e o combate sem tréguas a esses hereges violadores da paz pública, nunca pode ser, em si mesmo, considerado um erro.
Sem embargo, sabemos que todas as empresas humanas carregam a tendência ao pecado. Nesse sentido, é possível (e bastante provável) que excessos tenham sido cometidos durante a luta contra os cátaros. Esses erros, todavia, não podem ser imputados à Igreja, nem são erros da luta contra os cátaros em si mesma considerada. O abuso, dizemos, não tolhe o uso.".....(sic)
Acredite se quiser!!!!!!!!!!!!
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